Salvador Allende e Mário Pedrosa discursam na inauguração do Museo de la Solidaridad, em 17 de maio de 1972

Mário Pedrosa e Salvador Allende inauguram 1ª exposição do Museo de la Solidaridad

Discursos pronunciados pelo presidente da República, Salvador Allende, e por Mário Pedrosa, presidente do Comitê de Solidariedade Artística com o Chile, na inauguração da primeira exposição de obras doadas ao Museu da Solidariedade (Museo de la Solidaridad), em 17 de maio de 1972, no Museu de Arte Contemporânea.*

Mário Pedrosa, exilado no Chile, foi o maior responsável por mobilizar artistas de diversos países a doar obras para o Chile, um acervo reunido para mostrar a solidariedade do mundo ao povo chileno e ao governo socialista de Salvador Allende.1Conheça a história do museu, que desde a volta da democracia no Chile, em setembro de 1991, se chama Museo de la Solidaridad Salvador Allende, em mssa.cl/el-museo/. Em maio de 1972, mais de 600 obras de arte já faziam parte de seu acervo. Outras foram se incorporando nos meses seguintes e foi feita uma segunda inauguração oficial no edifício do MAC e da Unctad III em agosto de 1973, pouco antes do golpe de Estado. Conheça as obras doadas ao museu nesta fase em mssa.cl/la-coleccion/solidaridad/.

Neste discurso, Pedrosa fala sobre a obra de Miró, uma pintura sem nome que ele chama de galo miroviano. Alia política e arte ao dizer: “Os doadores querem que suas obras sejam destinadas ao povo, que sejam acessíveis a ele permanentemente. E mais do que isso, que o trabalhador das fábricas e das minas, dos povoados e dos campos entre em contato com elas, que as considere parte de seu patrimônio.”

Palavras do presidente da República

Senhoras, senhores, estimados companheiros: Mário Pedrosa, Pedro Miras e José Balmes. Senhores embaixadores, representantes de países amigos. Senhores delegados da 3ª Unctad. Autoridades civis, militares e eclesiásticas. Muito estimadas companheiras e estimados companheiros:

É para mim uma honra muito significativa receber, em nome do povo do Chile, estas mostras, estes quadros, estas obras que nos enviam, como expressão solidária, artistas dos distintos continentes.

Quero destacar que na profundidade das palavras e na beleza da forma, como corresponde a um artista, o companheiro Mário Pedrosa assinalou que este é o único museu do mundo que tem uma origem e um conteúdo de alcance tão profundo. É a expressão solidária de homens de diferentes povos e raças que, apesar da distância, entregam sua capacidade criadora, sem reservas, ao povo do Chile, nesta etapa criadora de sua luta. E o fazem nos momentos em que também a minha Pátria recebe a distinção de ser indicada como o lugar para que se reúnam os representantes de 141 países na 3ª Conferência de Comércio e Desenvolvimento. Não apenas o povo do Chile, mas também nossos visitantes compreenderão, como compreendemos todos, o que representa para nós este estímulo, esta expressão fraterna, esta manifestação solidária dos artistas do mundo.

Compreendo perfeitamente que não posso simplesmente dizer obrigado, embora essa palavra tenha um conteúdo tão profundo que com ela eu poderia expressar meus sentimentos e os sentimentos agradecidos dos trabalhadores chilenos.

Mas sempre entendi o conteúdo, o alcance e o significado que tiveram e terão estas manifestações dos criadores da beleza, dos tradutores da inquietação, em suas telas, em suas estátuas, em suas obras.

E é por isso que no 1º de Maio, em um ato público de massas e de profunda importância para nós, quando os trabalhadores do Chile se congregaram para lembrar aqueles que caíram para tornar possível – entre outras coisas – que os nossos se reunissem como Governo, anunciei que este Museu da Solidariedade seria inaugurado e li os nomes daqueles que considerei representativos, não apenas pela hierarquia de sua condição de criadores, mas por terem sido os primeiros, os nomes – repito – daqueles que enviaram ao Comitê de Solidariedade com mais rapidez sua expressão de afeto ao nosso povo e aos nossos trabalhadores.

Hoje eu quero, não por cumprir ritualmente uma formalidade protocolar, mas porque considero justo fazê-lo, lembrar aqui o comitê integrado por Louis Aragón, Jean Leymarie, Rafael Alberti, Carlo Levi, Aldo Pellegrini, Mariano Rodríguez e José María Moreno Galván.

Quero destacar aqueles que, como Mário Pedrosa e Danilo Tréllez, foram os representantes de nossos artistas para coordenar a entrega, e os companheiros José Balmes e Miguel Rojas e, além deles, o decano da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Chile, Pedro Miras Contreras, os quais também com sua influência, seus laços, com seus contatos, tornaram possível a materialização do que podemos contemplar hoje.

Como o companheiro Pedrosa expressou bem isso! Este não será um museu a mais. Este deve ser o Museu dos Trabalhadores, porque para eles foi doado, e quando o Governo Popular que presido lutou, porque o fez, para que a 3ª Unctad pudesse se realizar no Chile, quando o espírito da Unctad, por assim dizer, sacudiu o nosso povo, e tornou-se possível o que muitos não acreditavam ser possível, que iríamos materializar a construção do prédio baixo e da torre que serviram de sede física para os delegados de tantos países,2As obras do conjunto arquitetônico que serviria de sede para a 3ª Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad) em Santiago do Chile começaram em 1971. Para terminá-las a tempo para a conferência, em abril do ano seguinte, milhares de voluntários se mobilizaram, com o que foram concluídas em 275 dias, quando o normal para esse tipo de construção na época era três anos. Para saber mais sobre o edifício da Unctad III, que hoje abriga o Centro Cultural Gabriela Mistral (GAM), acesse os sites Memória Chilena, da Biblioteca Nacional do Chile, e o do próprio GAM. então vislumbramos o que esta torre será amanhã, e o que este prédio será amanhã. Queremos que esta torre seja entregue – e vou propor isso – às mulheres e crianças chilenas, e queremos que este edifício seja a base material do grande Instituto Nacional de Cultura, e em nenhum lugar melhor do que ali estarão estes quadros, estas telas e estas obras.

Lá irão os trabalhadores, entendendo que aqui, em uma nova concepção dos direitos do homem, e trabalhando fundamentalmente para o homem, colocando a economia a seu serviço, queremos que a cultura não seja o patrimônio de uma elite, mas que a ela tenham acesso – e legítimo – as grandes massas até agora excluídas e desprezadas, fundamentalmente, os trabalhadores da terra, da fábrica, da empresa ou o litoral.

Por isso, companheiro Pedrosa, eu lhe asseguro que este Museu não será desmembrado, que este Museu será mantido em sua totalidade e acredito que suas palavras também indicam a possibilidade de que seja ampliado, não porque nós pedimos, mas porque, certamente, muitos artistas que não tiveram informações oportunas ou o tempo necessário farão a entrega generosa que você mesmo já nos anunciou, para aumentar este patrimônio que, a partir de agora e por mandato dos artistas progressistas do mundo, integra o patrimônio cultural do povo do Chile.

Quero, por fim, chamar a atenção para um homem que, por seus anos, por sua excelência e por sua história de vida, merece que nele exprima meu reconhecimento aos artistas progressistas do mundo; refiro-me a Joan Miró, ao mestre, ou a dom Jean, como o chamam aqueles que têm direito de fazê-lo.

Ele quis, não entregar um quadro dos muitos ou dos poucos que tem em sua casa ou em sua galeria de trabalho, ele quis criar algo para o Chile. Ele foi mais generoso ainda, pôs sua inteligência, seus pincéis, sua mente a trabalhar para materializar este galo que, como disse o companheiro Pedrosa, “canta um novo amanhecer”, para um novo amanhecer, que é uma vida diferente, em um país dependente que rompe as amarras para derrotar o subdesenvolvimento e com ele a ignorância, a miséria, a incultura e a doença.

Em Joan Miró, ancião respeitado e respeitável, pintor sem fronteiras, presto a homenagem agradecida do povo do Chile pela atitude de tantos que entenderam o que fazemos aqui, os objetivos que queremos alcançar, nossa dura luta frente a interesses poderosos – nacionais e estrangeiros – que gostariam que o povo permanecesse subjugado e à margem da educação e cultura.

Este museu será a expressão do estímulo mais profundo que os trabalhadores sentirão mais de perto. E posso dizer-lhe que o povo do Chile faz suas as palavras do nosso grande poeta Pablo Neruda, quando pensamos que no mundo não deve haver fronteiras e quando ele diz que “sua casa sem portas é a terra, e as estrelas do mundo são sua pátria”.

* * * * *

Disse Mário Pedrosa

A ideia de solidariedade que o galo miroviano nos apresenta com tão graciosa altivez não teria chegado ao horizonte internacional assim, espontaneamente, sem o sopro de vida que emana desta difícil, desta admiravelmente difícil realidade chilena que o senhor, companheiro presidente, tão bem representa. E é por isso que, neste exato momento, todos nós temos – como se estivesse em nossas mãos – a ideia simbolizada nestes quadros, nestas esculturas, nestas gravuras e desenhos, nestas imagens que se desprendem destas salas, nos comovem e vão permitir a constituição do Museu da Solidariedade que o senhor, companheiro presidente, vai instaurar.

O que faço aqui, agora, é um ato abusivo de sub-rogação para falar em nome dos artistas que doaram ao Chile obras de sua autoria, já que nenhum poder de procuração me foi enviado pelos artistas doadores por qualquer via material, nem muito menos por nenhum dos respectivos canais burocráticos regulamentares. Essa procuração nós, membros do Comitê Internacional de Solidariedade Artística com o Chile, também a tiramos do ar. É que tudo acontece, mais do que no domínio propriamente da ideia, no domínio do ideal de socialismo que inspira os senhores, homens práticos que operam os mecanismos do Estado e as alavancas do poder, e inspira os artistas do mundo que manejam instrumentos de trabalho ainda pessoais, destinados, em sua maioria, a capturar sensações, vivências, imagens, intuições, “a essência do homem”, em suma, em eterno conflito com sua existência, no fim do qual o homem encontra ou deve encontrar sua total libertação.

Agora, guardada nestas salas, pendurada nas paredes, já está materializada a ideia sob cujo calor enobrecedor nos reunimos aqui. Essa materialização é a arte em seu processo de surgimento. Além de olhá-las, contemplá-las, admirar essas corporificações, de dialogar com elas pelo tato, pelos sentidos, pelo pensamento, adquirimos uma nova experiência vivencial, um novo enriquecimento cognitivo, que é sobretudo um veículo da Verdade ainda transcendente em seu contraste com uma realidade que a nega. E enquanto a realidade que a nega. E enquanto a realidade continua a negá-la, a arte prossegue em sua aproximação permanente de uma verdade cada vez mais histórica e cada vez menos transcendente. Um dia, em um ponto no horizonte, os dois processos se encontrarão, e então a arte será a vida e a vida será arte. Desse otimismo vivem os homens de ação, que acreditam no futuro e querem forjá-lo como progresso e bem-estar; e vivem os artistas, que são os homens de imaginação, que querem criar a felicidade humana na terra.

Permitam-me também que, voltando à primeira exposição de nosso Museu da Solidariedade – como o senhor, companheiro presidente, o chamou em sua carta aos artistas do mundo –, eu lhes diga que esperamos novas obras de outras partes do mundo: dos Estados Unidos, da Inglaterra, da França, da Itália e outros, além dos nossos países da América do Sul, inclusive meu país, cujo governo fechou as portas de saída aos nossos artistas que queriam demonstrar sua solidariedade com o socialismo chileno.

E mais ainda, que estas obras exibidas aqui não estão distribuídas arbitrariamente; buscou-se uma lógica interna que as unisse, e seus espaços correspondem a essa lógica, na medida do possível. Todas as ideias ou estilos da arte contemporânea do mundo estão representados aqui. E os senhores verão desde a linha lírica e criativa de Miró até obras que não pedem mais contemplação, são mais bem um chamado à ação revolucionária.

O que une de forma indissolúvel essas doações é precisamente este sentimento de fraternidade, para que nunca se dispersem em direções e destinos diferentes. Os artistas as doam para um museu que não se desfaça com o tempo, que permaneça através dos acontecimentos como aquilo para o que foi criado: um monumento de solidariedade cultural ao povo do Chile em um momento excepcional de sua história.

Nosso Comitê agradece, companheiro presidente, a concessão de espaços suficientes no edifício da 3ª Unctad para abrigar o precioso acervo já formado, ao qual devem se unir as obras que estão por chegar ou foram prometidas. Esta coleção fará do nosso museu o mais rico da América Latina e o único de seu gênero.

Os doadores querem que suas obras sejam destinadas ao povo, que sejam acessíveis a ele permanentemente. E mais do que isso, que o trabalhador das fábricas e das minas, dos povoados e dos campos entre em contato com elas, que as considere parte de seu patrimônio. A esperança dos artistas e a nossa é contribuir dessa maneira para a criatividade popular espontânea, para que ela flua livremente e possa ajudar a transformação revolucionária do Chile. É assim que pensamos que o “Museu da Solidariedade” deve ser exemplar em suas funções específicas, exemplar em suas tarefas educativas e culturais, exemplar em sua acessibilidade democrática. Deve ser o lar natural das expressões culturais mais férteis do Chile novo, consequência do seu avanço no caminho do socialismo. Esse é o desejo entusiástico dos artistas do mundo que contribuem para isso com a entrega do produto de sua força criativa.

Agora não nos resta mais do que ouvir o canto do galo de Miró, que canta com seu bico aberto uma canção de fé e de vigor, de quem sabe que anuncia o amanhecer. Que seja o novo amanhecer do Chile; assim esperam os artistas doadores e nós também.

Gostaria de agradecer ao senhor, companheiro presidente, pela compreensão que sua resposta aos artistas demonstra, e gostaria de fazê-lo em todas as línguas da terra.


* O texto original dos dois discursos está disponível na área de Publicações do site do Museo de la Solidaridad Salvador Allende. A tradução é de Cemap-Interludium.

Notas

  • 1
    Conheça a história do museu, que desde a volta da democracia no Chile, em setembro de 1991, se chama Museo de la Solidaridad Salvador Allende, em mssa.cl/el-museo/. Em maio de 1972, mais de 600 obras de arte já faziam parte de seu acervo. Outras foram se incorporando nos meses seguintes e foi feita uma segunda inauguração oficial no edifício do MAC e da Unctad III em agosto de 1973, pouco antes do golpe de Estado. Conheça as obras doadas ao museu nesta fase em mssa.cl/la-coleccion/solidaridad/.
  • 2
    As obras do conjunto arquitetônico que serviria de sede para a 3ª Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad) em Santiago do Chile começaram em 1971. Para terminá-las a tempo para a conferência, em abril do ano seguinte, milhares de voluntários se mobilizaram, com o que foram concluídas em 275 dias, quando o normal para esse tipo de construção na época era três anos. Para saber mais sobre o edifício da Unctad III, que hoje abriga o Centro Cultural Gabriela Mistral (GAM), acesse os sites Memória Chilena, da Biblioteca Nacional do Chile, e o do próprio GAM.