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Carta 17

17. Carta de notícias enviada por Mário Pedrosa a Lívio Xavier. Rio de Janeiro, fim de agosto ou setembro de 1929. Original. 4 folhas. (Contém marginália na folha 4). [Livio-1929a]

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Livio, recebi a carta, não escrevi ainda por falta de disposição.1Pedrosa voltou ao Brasil em agosto de 1929, depois de dois anos de intensa politização em Berlim e Paris, disposto a conversar com os amigos militantes mais próximos sobre a formação de uma dissidência da oposição de esquerda no PCB. Ja estou de novo completamente desmoralisado. E agora peior porque com uma bruta vontade de voltar. O Coutinho está decidido a voltar. Ja arranjou meios pra isso. É cousa assentada. No maximo dentro de 3 mezes. O Antonio Bento está dizendo que vae tambem.2Rodolfo Coutinho, um dos dirigentes do PCB que saiu do partido com a cisão de 1928, e o crítico de arte Antônio Bento de Araújo Lima, amigos de Pedrosa e Lívio Xavier. E eu fico cada vez mais desesperado. Encontrei aqui tudo ainda peior do que esperava. Não só a cidade em si como a gente – como sobretudo a nossa gente e meio. O Coutinho completamente desanimado (aliás com razão) etc, os outros, cretinos, uns, e os outros, no mundo da lúa, em plena seita. Isso aqui acaba tudo em nacionalismo histerico. Brandão, a quem ainda não vi – cada vez mais asceta. O Paulo, irremediavelmente o mesmo.3Otávio Brandão e Paulo de Lacerda, dirigentes do PCB. O Castro – me causou decepção. Sem a menor comprehensão da situação internacional, sem consciencia do momento, fazendo criticas completamente atrasadas e o que é peior parece sem grande disposição de espirito pra fazer uma seria revisão de seu ponto de vista etc etc. O Azambuja ainda não o vi.4O professor da Faculdade de Direito do Rio Edgar de Castro Rebello e o advogado Wenceslau Escobar de Azambuja, companheiros de militância de Pedrosa e Lívio no PCB e também em processo de rompimento com a direção do partido. – Mas combinei com o Coutinho – de reunirmos um grupo. Elle acha que o grupo deve ser o mais fechado possivel e só com gente de toda confiança.

Não se faz nenhuma politica de militante. Só de

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estudos theoricos, revizão de pontos de vista, informações da situação internacional, nacional etc. E depois de uma certa homogeneidade ideologica – entra-se em communicação com o Trotzky – por intermedio do Naville5Depois de ser expulso do PC da URSS no fim de 1927 e do país em fevereiro de 1929, Trotsky estava exilado na Turquia e nesse período organizava a Oposição de Esquerda Internacional. Na França, um dos maiores responsáveis por esse trabalho era Pierre Naville, editor da revista La Lutte de Classes, expulso do PCF em janeiro de 1928. Pedrosa já se correspondia com Naville, mas foi durante os anos que passou na Europa que a amizade e a aproximação política dos dois se consolidou. (coisa aliás combinada entre mim e este) – não só dando informações do que se passa aqui – como situando nossa posição do ponto de vista internacional – mas tudo numa attitude de completa independencia. A nossa idéa é nos reunirmos. E fazer uns esforços pra estudarmos alguma cousa collectivamente – não só do ponto de vista puramente theorico como tambem de analyse dos factos, dos acontecimentos etc – de modo a não perdermos de vista a situação mundial e nacional, de modo a sempre podermos tomar pé nos acontecimentos.

O Coutinho acha que a cousa deve ser bem fechada. Só de elementos com que se conte absolutamente. Assim somente o Salvio6O então estudante de engenharia Sávio Antunes. e irmão, elle e eu, e talvez o Azambuja (pois casou-se e ninguém sabe mais) e o Silva, alfaiate e o Antonio Bento, emquanto não fôr embora. E mais ninguem. E isso não deve transpirar la fóra.

Acha o Coutinho que não devo dizer nada a ninguem. E que quando fôr ao partido (pois que não pedi demissão de membro do P.C. allemão) não manifestar o meu ponto de vista e apenas

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pedir uma licença, sob o pretexto de não saber ainda se fico aqui no Rio ou não etc. Eu estava pensando em ir – e sendo interrogado, como é certo, dar a minha opinião franca, embora em bons termos etc, e então conforme o que me dissessem – pedir minha demissão sem barulho e sem briga, reservando-me o direito de voltar outra vez ao partido, de accordo com a marcha dos acontecimentos e se as cousas mudassem de rumo etc. Não sei ainda o que resolva. Estou ainda inclinado a tomar o ultimo caminho – porque dias atraz, estando com o Di,7O pintor Di Cavalcanti, um dos mais importantes do modernismo. que anda aliás muito cretino, me encontrei com o Paulo. Este então me perguntou porque não tinha ido pra Russia, e o Di, pra fazer graça, entrou na conversa e disse que a razão éra porque eu era trotzkista, o que estragou bastante o nosso plano (Coutinho e eu).

Fui obrigado a diser que éra ideologicamente, mas que em todo caso tinha me conservado no partido etc. Uma tapeação besta. O Coutinho achava que eu não devia me abrir perante os chefes – pra não prejudicar o desenvolvimento futuro do grupo ou mesmo a sua formação – pois bastava que elles dissessem que eramos trotzkistas pra todo mundo fugir ás leguas de nós. etc. Estou enroscado e ainda não resolvi nada. E por isso mesmo não apareci ainda por . Me mande a sua opinião não só sobre o meu caso como sobre o grupo – pois

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naturalmente contamos com você. ––

O Antonio Bento continúa complicado – querendo se equilibrar numa posição insustentavel, conciliando cousas inconciliaveis. Os literatos de mal a peior. Conheci a Tarsila, muito, mas muito mais interessante que sua pintura sem importancia, e conheci o Oswaldo,8A pintora Tarsila do Amaral e o escritor Oswald de Andrade, dois ícones do modernismo. Eles lideraram o Movimento Antropofágico, corrente de vanguarda que teve profunda influência na arte brasileira, mas na época estava se dispersando. sujeito simpatico e engraçado. Anda me procurando pra conversar e afirmando os pontos de contacto da antropofagia com o communismo. Disse a elle que fizesse um congresso e convocasse a nós todos e então discutiriamos etc. Ficou combinado isso.

Ando aqui sempre com o Antonio ou então a Elsie e o Benjamin.9O poeta surrealista francês Benjamin Péret e a cantora lírica Elsie Houston casaram-se em Paris em abril de 1928 e em fevereiro de 1929 mudaram-se para o Brasil, onde viveram até 1931, quando o poeta foi expulso por causa de sua militância na oposição de esquerda. Pedrosa chama o amigo Péret e Elsie, irmã de de sua mulher, Mary, de “o fabuloso casal”. O resto do pessoal não se suporta. O Osvaldo e mesmo a Tarsila se andassem sosinhos ainda bem – mas vivem com um tal de poeta Alvaro Moreyra e sua mulher – que é o par mais burro e idiota que se pode imaginar.10O poeta e jornalista Álvaro Moreyra. Era casado com a atriz, jornalista e líder feminista Eugênia Álvaro Moreyra. Por isso – fujo delles quanto posso. ––

–– Compro bilhetes de loteria pra ver se dou o golpe. Ando sonhando com 1 meio de voltar. Acabo fugindo como passajeiro clandestino. Por emquanto estou vendo se arranjo uma merda qualquer pra ganhar uns cobres. O Diario da Noite quererá me dar qualquer cousa. Como observador parlamentar, por exemplo? Ou o teu fabuloso jornal? Ha alguma opportunidade por ahi? O Rafael Correia com quem estive hontem me prometteu alguma cousa la por Santos. Estou esperando – Aqui em casa é a cousa mais páu que existe no mundo. So dou agora pra viver sosinho. Você acha que devo escrever

(Continua na margem esquerda) ao Osvaldo Chatô? E o Bopp? pergunta a elle se elle pode arranjar alguma cousa por ahi.11Pedrosa fala de amigos e conhecidos na imprensa. Ele trabalhou no Diário da Noite de São Paulo em 1926, sob a direção de Oswaldo Chateaubriand, irmão de Assis Chateaubriand, dono dos Diários Associados. Rafael Correia de Oliveira ocupava então a secretaria de redação do Diário, mas em 1929 já era diretor do A Praça de Santos. O poeta modernista Raul Bopp acabava de encerrar a página semanal da Revista de Antropofagia, que circulava no jornal Diário de São Paulo, mas dirigia também a sucursal paulista da Agência Brasileira de Notícias. Um abraço nelle aliás. Etc. Você me escreva ja e me diga tudo que sabe. Não sei quando possa ir por ahi. –

Ah Uma cousa muito importante: Todos aqui – sem excepção – achamos que você deve fazer o Toque de Assuêro. Fui mesmo encarregado de falar isso a você – em nome dos amigos. Se bem não lhe fizer – mal tambem não ha de fazer. Estamos dispostos mesmo a fazer 1 subscripção para isso.12Por volta de 1929, ficou de moda uma “cura milagrosa”, conhecida como Toque de Assuero ou assueroterapia – a “técnica”, do médico espanhol Fernando Asuero, consistia na cauterização de certos pontos no nariz do paciente para tratar doenças que não tinham cura na medicina convencional. No Brasil, a história virou até uma marchinha, O Toque do Assuero, de Lamartine Babo. Provavelmente Pedrosa estava brincando com Lívio, já que não era dado a acreditar em “milagres”. O Rafael que conhecia em Santos quem faria isso de graça. Aqui estamos ás ordens. E se você quer – vamos arranjar tudo. Resolva.

Abraços

Mario

Notas

1. Pedrosa voltou ao Brasil em agosto de 1929, depois de dois anos de intensa politização em Berlim e Paris, disposto a conversar com os amigos militantes mais próximos sobre a formação de uma dissidência da oposição de esquerda no PCB.

2. Rodolfo Coutinho, um dos dirigentes do PCB que saiu do partido com a cisão de 1928, e o crítico de arte Antônio Bento de Araújo Lima, amigos de Pedrosa e Lívio Xavier.

3. Otávio Brandão e Paulo de Lacerda, dirigentes do PCB.

4. O professor da Faculdade de Direito do Rio Edgar de Castro Rebello e o advogado Wenceslau Escobar de Azambuja, companheiros de militância de Pedrosa e Lívio no PCB e também em processo de rompimento com a direção do partido.

5. Depois de ser expulso do PC da URSS no fim de 1927 e do país em fevereiro de 1929, Trotsky estava exilado na Turquia e nesse período organizava a Oposição de Esquerda Internacional. Na França, um dos maiores responsáveis por esse trabalho era Pierre Naville, editor da revista La Lutte de Classes, expulso do PCF em janeiro de 1928. Pedrosa já se correspondia com Naville, mas foi durante os anos que passou na Europa que a amizade e a aproximação política dos dois se consolidou.

6. O então estudante de engenharia Sávio Antunes.

7. O pintor Di Cavalcanti, um dos mais importantes do modernismo.

8. A pintora Tarsila do Amaral e o escritor Oswald de Andrade, dois ícones do modernismo. Eles lideraram o Movimento Antropofágico, corrente de vanguarda que teve profunda influência na arte brasileira, mas na época estava se dispersando.

9. O poeta surrealista francês Benjamin Péret e a cantora lírica Elsie Houston casaram-se em Paris em abril de 1928 e em fevereiro de 1929 mudaram-se para o Brasil, onde viveram até 1931, quando o poeta foi expulso por causa de sua militância na oposição de esquerda. Pedrosa chama o amigo Péret e Elsie, irmã de de sua mulher, Mary, de “o fabuloso casal”.

10. O poeta e jornalista Álvaro Moreyra. Era casado com a atriz, jornalista e líder feminista Eugênia Álvaro Moreyra.

11. Pedrosa fala de amigos e conhecidos na imprensa. Ele trabalhou no Diário da Noite de São Paulo em 1926, sob a direção de Oswaldo Chateaubriand, irmão de Assis Chateaubriand, dono dos Diários Associados. Rafael Correia de Oliveira ocupava então a secretaria de redação do Diário, mas em 1929 já era diretor do A Praça de Santos. O poeta modernista Raul Bopp acabava de encerrar a página semanal da Revista de Antropofagia, que circulava no jornal Diário de São Paulo, mas dirigia também a sucursal paulista da Agência Brasileira de Notícias.

12. Por volta de 1929, ficou de moda uma “cura milagrosa”, conhecida como Toque de Assuero ou assueroterapia – a “técnica”, do médico espanhol Fernando Asuero, consistia na cauterização de certos pontos no nariz do paciente para tratar doenças que não tinham cura na medicina convencional. No Brasil, a história virou até uma marchinha, O Toque do Assuero, de Lamartine Babo. Provavelmente Pedrosa estava brincando com Lívio, já que não era dado a acreditar em “milagres”.