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Carta 8

8. Carta de notícias enviada por Mário Pedrosa a Lívio Xavier. São Paulo, 2º semestre de 1926, depois de setembro. Original. 5 folhas.1Carta escrita em folha de papel timbrado do Diario da Noite. (Contém marginália na folha 5). [Livio-1926]

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Livio, ja haviamos quasi desesperado de receber noticias suas, quando chegou a sua carta. E sem querer, demorei tambem demais na resposta. Primeiro que tudo, faço votos para que seu pae ja esteja melhor de saúde e melhor a sua situação. É preciso que você saia dessa situação. Eu, pelo bem que lhe quero, desejo isso como se fosse para um irmão meu. Aliás, os amigos que você aqui deixou pela mesma maneira. Você me tem feito uma falta damnada. A todo nós que sempre falamos em você com saudades. A proposito, tenho a lhe dizer duas bôas notícias. ––

O Plinio o tem em muita consideração e ainda ha pouquinhos dias disse ao novo Secretario (depois lhe conto) que o seu logar estava garantido no Diario em qualquer occasião

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que você viesse. Agora a outra noticia – O Pedrinho, no começo deste mez, depois de outro atricto com o Sartorelli, pulou fóra de verdade.

É bom que se diga que o Raphael muito contribuio para isso… O Pedrinho quiz me botar para fóra e por causa delle vim até agora ganhando os 300$000 da Chronica Internacional. Fazia uma guerra surda a mim e a Antonio Bento.

O Rubens do Amaral (o novo secretario) é o antigo sub-secretario do Diario que o Raphael substituiu. É um bom rapaz, intelligente e mais identificado connosco. O Diario começou agora a ter duas ediçoes – uma, ás 4, outra as 6.2O jornal Diário da Noite foi fundado por Plínio Barreto, Estanislau Rubens do Amaral e Léo Vaz, e começou a circular em 7 de janeiro de 1925. Pedro Ferraz do Amaral era redator-chefe, enquanto Rafael Correia de Oliveira ocupava a secretaria de redação. O crítico de arte Antônio Bento de Araújo Lima, que trabalhava no jornal na época, era um amigo muito próximo de Pedrosa.

O Di3O pintor Di Cavalcanti, um dos idealizadores da Semana de Arte Moderna de 1922. continúa nosso camarada. Vamos aqui arrastando uma vida, sem nenhuma literatura, perfeitamente estupida. Tivemos planos de irmos para Paris. Estão um tanto desmantelados, mas não abandonados. A Elsie

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segue para Paris este mez, você já deve saber. Talvez a Mary vá.4A cantora lírica e compositora Elsie Houston, irmã de Mary Houston, que depois se casou com Pedrosa. Em 1926, Elsie se apresentou no Salão do Conservatório Dramático e Musical de São Paulo em março, e no Teatro Casino, no Rio de Janeiro, em 2 de julho. Pouco depois, embarcou para Paris, para estudar canto. O Ismael continua numa evolução de arte damnada. O Mario de Andrade, muito nosso amigo, ja se nota nelle alguns preconceitos estheticos a menos.5O artista plástico Ismael Nery, um dos precursores do surrealismo na pintura no Brasil e amigo de Pedrosa e Murilo Mendes, e o escritor e historiador de arte Mário de Andrade, um dos fundadores do modernismo e figura central do movimento vanguardista em São Paulo.

Temos outros camaradas. Mas tudo é inútil e esteril. Meu proselytismo continúa. De musica, quasi nada. A não ser a mania da brazileira. Se achares por ahi alguma cousa interessante manda. Côco6O coco é uma dança de roda e canto da Região Nordeste, especialmente Pernambuco, Alagoas e Paraíba, com influências dos batuques africanos e dos bailados indígenas. etc.

– Tenho recebido Clarté. Recebi ha poucos dias – 2 brochuras – Uma – La Révolution et les Intellectuels – assignada pelas iniciaes A.D. O autor é do partido. Faz uma analyse profunda e bem feita das relações do surrealismo com o communismo. A outra – é do Breton – Légitime Défense – como o nome indica defende-se e explica a sua não adhesão ainda ao partido. Em alguns pontos, tem razão; em ou-

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tros, não. É a questão de La Guerre Civile etc.7Em 1925, a revista Clarté e os surrealistas iniciaram uma aproximação, para discutir a adesão do grupo ao Partido Comunista francês. A criação de uma revista conjunta, La Guerre Civile, chegou a ser anunciada, mas não se concretizou, por objeções da direção do PCF. No ano seguinte, o surrealista Pierre Naville entrou no partido e assumiu a edição da Clarté. Pouco depois, publicou La Révolution et les Intellectuels, em que cobrava dos surrealistas o engajamento com o partido. Em setembro, o líder do grupo, André Breton, respondeu com Légitime Défense, em que apontava temores de perda de autonomia criativa dentro do PC, queixava-se da hostilidade do partido para com os surrealistas e fazia críticas a seu jornal, o L’Humanité.

Gostei de ambas. Breton diz que não ha razão para que elle e seus amigos abandonem de vez o surrealismo e as pesquizas nesse sentido, como parece exigir o partido. Diz elle que aguarda a resposta do Partido para nelle ingressar sem reservas. Precisa antes saber se dentro delle é possível certos debates que quer levantar, a discussão sobre certos pontos que tem em vista para uma decisão mais profunda do partido a respeito. Ataca L’Humanité, dizendo que nella só a collaboração de Doriot, de Camille Fegy, de Fourrier e Crastre se salvam. Ataca Barbusse tambem.8Henri Barbusse foi fundador do movimento e da revista Clarté. Camille Fégy, Marcel Fourrier e Victor Crastre faziam parte da equipe de redação da revista e de L’Humanité. Jacques Doriot produzia artigos para o jornal. Tenho recebido L’Huma.

No Rio, onde estive no mez passado – estive com o Castro que me perguntou por ti, com o Hahnemann e os outros amigos.9O professor Edgar de Castro Rebello, militante do PC, com quem Pedrosa teve um dos primeiros contatos com o marxismo, ainda na Faculdade de Direito. E o jurista Hahnemann Guimarães, muito ligado às ideias positivistas e contemporâneo de Pedrosa na faculdade.

Presumo que estejas advogando com aquelle

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teu amigo de Fortaleza. Que pretendes fazer?

Ja podes resolver a tua vida? – Aqui tudo corre como deixaste. Dispõe de mim para o que quiseres. Escreva-me.

Recommendações a tua família e recebe um abraço

do teu velho

Mario

P.S. Naturalmente deixamos o Hotel por ser caro demais. Estamos presentemente numa pensão na rua 7 de Abril, 52. Moramos eu e o Bento num quarto grande, pelo qual com a pensão pagamos 500$.

Mas vamos deixar esta pensão que é muito freje. Por isso nosso endereço continúa ser o Diario. Estou com o P. Orlando com escriptorio montado. Mas até agora só tem dado para as despezas.

Manda dizer quando é possível vires – ou o que decidiste sobre isso. –––

Na margem esquerda: O Antonio Bento e o Raphael te abraçam.

Notas

1. Carta escrita em folha de papel timbrado do Diario da Noite.

2. O jornal Diário da Noite foi fundado por Plínio Barreto, Estanislau Rubens do Amaral e Léo Vaz, e começou a circular em 7 de janeiro de 1925. Pedro Ferraz do Amaral era redator-chefe, enquanto Rafael Correia de Oliveira ocupava a secretaria de redação. O crítico de arte Antônio Bento de Araújo Lima, que trabalhava no jornal na época, era um amigo muito próximo de Pedrosa.

3. O pintor Di Cavalcanti, um dos idealizadores da Semana de Arte Moderna de 1922.

4. A cantora lírica e compositora Elsie Houston, irmã de Mary Houston, que depois se casou com Pedrosa. Em 1926, Elsie se apresentou no Salão do Conservatório Dramático e Musical de São Paulo em março, e no Teatro Casino, no Rio de Janeiro, em 2 de julho. Pouco depois, embarcou para Paris, para estudar canto.

5. O artista plástico Ismael Nery, um dos precursores do surrealismo na pintura no Brasil e amigo de Pedrosa e Murilo Mendes, e o escritor e historiador de arte Mário de Andrade, um dos fundadores do modernismo e figura central do movimento vanguardista em São Paulo.

6. O coco é uma dança de roda e canto da Região Nordeste, especialmente Pernambuco, Alagoas e Paraíba, com influências dos batuques africanos e dos bailados indígenas.

7. Em 1925, a revista Clarté e os surrealistas iniciaram uma aproximação, para discutir a adesão do grupo ao Partido Comunista francês. A criação de uma revista conjunta, La Guerre Civile, chegou a ser anunciada, mas não se concretizou, por objeções da direção do PCF. No ano seguinte, o surrealista Pierre Naville entrou no partido e assumiu a edição da Clarté. Pouco depois, publicou La Révolution et les Intellectuels, em que cobrava dos surrealistas o engajamento com o partido. Em setembro, o líder do grupo, André Breton, respondeu com Légitime Défense, em que apontava temores de perda de autonomia criativa dentro do PC, queixava-se da hostilidade do partido para com os surrealistas e fazia críticas a seu jornal, o L’Humanité.

8. Henri Barbusse foi fundador do movimento e da revista Clarté. Camille Fégy, Marcel Fourrier e Victor Crastre faziam parte da equipe de redação da revista e de L’Humanité. Jacques Doriot produzia artigos para o jornal.

9. O professor Edgar de Castro Rebello, militante do PC, com quem Pedrosa teve um dos primeiros contatos com o marxismo, ainda na Faculdade de Direito. E o jurista Hahnemann Guimarães, muito ligado às ideias positivistas e contemporâneo de Pedrosa na faculdade.