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Carta 5

5. Carta de notícias enviada por Mário Pedrosa a Lívio Xavier. São Paulo, 29 de agosto de 1925. Original. 4 folhas.1Esta carta está junto com a carta de 14 de outubro de 1925. (Contém marginália na folha 1). [Livio-1925-08-29, fl. 1, 3-5]

[fl. 1]

Miseravel amigo, ja não pensava mais em ti. Havia me esquecido – de você e de tudo isso, esse mundo em que você se mexe, e de onde não posso te abstrair. Horrivel contingencia.

Ja éra tempo de alcançar a alta sabedoria. Subiste ao nirvana?

O que o Duhamel2O escritor e poeta francês Georges Duhamel. Em cartas anteriores, Pedrosa comenta que está lendo seu livro La Possession du monde. não conseguiu, um simples passeio no matto foi a conta. Não ha duvida, a felicidade pela agricultura. E não gostas da paysagem. Acabas cantando os evangelhos nas selvas. Leio o Fischer, que num capitulo falla da “erotisation du cerveau” e um outro – da “influencia dalimentação na pensée d’amores”. Noutro em “raz de marée sexuels” e num outro – Désobéissance de l’homme aux règles naturelles de l’impulsion sexuelle – e ainda em – Faiblesse de ses instincts et nécessité de les remplacer par une faculté nouvelle, l’imagination. Ou mais: L’imagina

Na margem esquerda: Estou à espera do amigo de Piracicaba. Por estes dias. Se não vier, escreverei. Mario

[fl. 2]

tion s’ajoute à l’impulsion physiologique eveillée bio-chimiquement dans le cerveau et joune ainsie la pensée d’amour” Etc etc. Freud, os outros, Marx confirmado etc.3Trata-se do livro de Jacques Fischer L’amour et la morale: essai d’interprétation physiologique de la pensée humaine. Pedrosa cita Sigmund Freud, considerado o pai da psicanálise, e Karl Marx, economista e filósofo revolucionário socialista, “pai” do comunismo científico.

Estou gostando. Pretendo disso tirar muito fundamento do essencialismo.

Ja li os 2 Gide:4O escritor francês André Gide, criador da revista literária Nouvelle Revue Française. Gide era homossexual assumido e defendia abertamente os direitos dos homossexuais. Seu livro mais famoso sobre o assunto é Corydon. Ele também se engajou na luta contra contra o colonialismo e, mais tarde, o fascismo. gostei, mas muito arte pela arte, muito bonito. Mas para mim é pouco. Li sem pensar, sem criticar. Leitura muito agradavel.

Mais não posso dizer. ––

Ah quero Europe, ja disse. E Les N.L. tambem. L’Huma,5As revistas literárias francesas Europe e Les Nouvelles Littéraires, e o jornal L’Humanité (chamado coloquialmente de L’Huma), do Partido Comunista francês. da ultima, das que tenho (até 21 de julho) dá noticia do escandalo no banquete – contra Mme. Rachilde e o Lugné-Poe, a madame porque dias antes, numa entrevista, affirmava que francezes não deviam se casar com allemães. E o Lugné-Poe porque fôra espião oficial durante a guerra.6Em 2 de julho de 1925 a Nouvelles Littéraires ofereceu um banquete em homenagem ao poeta simbolista francês Saint-Pol-Roux. O encontro foi tumultuado por jovens escritores surrealistas, indignados com a escritora Rachilde, pseudônimo de Marguerite Vallette-Eymery, e o ator e diretor Aurélien-Marie Lugné, conhecido como Lugné-Poe. Leu isto?

[fl. 3]

Não irei alem desta folha: dente por dente, olho por olho. Aliás sou mais generoso.

Está livre de [Borisy, palavra não compreensível]? Ainda não vi os communistas. Estive em Campinas. O Anthenor publicou na E. Nova – um trecho de uma carta que lhe escrevi – fallando sobre o surrealismo.7A Era Nova foi uma revista publicada na Paraíba entre 1921 e 1926. O trecho da carta saiu no número 83, de 15 de julho de 1925, com o título “Alguma cousa de surréalisme”, sem indicação de autoria. O jornalista e político paraibano Antenor de França Navarro, amigo de Pedrosa, colaborava com a revista. Ainda não recebi Clarté.8A Clarté foi uma revista de discussão política e cultural lançada em 1921 por intelectuais comunistas internacionalistas. Originalmente ligada aos surrealistas e próxima à 3ª Internacional. Está bom número? É toda ella de respostas?

Richet, bom sorbonnard, favoravel á guerra da civilisação? Doriot foi ferido numa arruaça em Marselha, vi isso num telegramma de dias atraz.9O médico e fisiologista Charles Robert Richet, professor da Sorbonne, que integrava o movimento pacifista francês, mas foi também defensor do eugenismo e do racismo. E o militante do PC Jacques Doriot, que chefiava as Juventudes Comunistas Francesas. Faz calor, a cadeira, de fundo recheiado, esquenta prodigiosamente o cú da gente. Tenho mêdo de hemorroidas, por isso vou parar e me deitar para ler, são 5 ½ .

O latim me humilhou. Mas passei por cima, sobranceiramente. Em todo caso, não repitas. O Anthenor quer collaboração sua para a E. Nova. Qualquer cousa, tens liberdade. Não dá dinheiro. O Phalansterio virá.10François Marie Charles Fourier, filósofo socialista francês, propunha uma forma de cooperativismo que consistia na formação de falanstérios, comunidades autônomas e autossuficientes, organizadas de forma descentralizada, nas quais cada um trabalharia conforme seus interesses e vocações. Suas ideias inspiraram várias correntes anarquistas.

[fl. 4]

Quando fizer o manifesto, você fará outro. Depois criticaremos, podamos e accrescentamos. Depois o bicho sahirá manufacturado e polido na nossa revista etc Depois ficaremos celebres e a gloria nos bafejará. E depois ficarão safados connosco. E depois não ficarão mais safados, acostumados, não ligarão mais. E ahi nós é que ficamos safados – e enfim mergulharemos na merda pantheista, integrados completamente no universo, para orgulho e engrandecimento do Graça.11O escritor Graça Aranha fez o discurso inaugural da Semana de Arte Moderna, em 1922, e foi um de seus organizadores. Desde 1924, ele e Oswald de Andrade, outro ícone da Semana, mantinham uma polêmica bastante acirrada sobre o que é ou não modernismo. Amen.

Ja fiz a historia do nosso destino. Cantei o miserere tambem. Agora, só nos resta, cumprir o vaticinio em obediencia a sibylla que fui.

Felizmente, que tenho – riqueza de minha miseria – consciencia de que sou – um punhado de merda.

Mario

Sabbado 29-8-25.

Notas

1. Esta carta está junto com a carta de 14 de outubro de 1925.

2. O escritor e poeta francês Georges Duhamel. Em cartas anteriores, Pedrosa comenta que está lendo seu livro La Possession du monde.

3. Trata-se do livro de Jacques Fischer L’amour et la morale: essai d’interprétation physiologique de la pensée humaine. Pedrosa cita Sigmund Freud, considerado o pai da psicanálise, e Karl Marx, economista e filósofo revolucionário socialista, “pai” do comunismo científico.

4. O escritor francês André Gide, criador da revista literária Nouvelle Revue Française. Gide era homossexual assumido e defendia abertamente os direitos dos homossexuais. Seu livro mais famoso sobre o assunto é Corydon. Ele também se engajou na luta contra contra o colonialismo e, mais tarde, o fascismo.

5. As revistas literárias francesas Europe e Les Nouvelles Littéraires, e o jornal L’Humanité (chamado coloquialmente de L’Huma), do Partido Comunista francês.

6. Em 2 de julho de 1925 a Nouvelles Littéraires ofereceu um banquete em homenagem ao poeta simbolista francês Saint-Pol-Roux. O encontro foi tumultuado por jovens escritores surrealistas, indignados com a escritora Rachilde, pseudônimo de Marguerite Vallette-Eymery, e o ator e diretor Aurélien-Marie Lugné, conhecido como Lugné-Poe.

7. A Era Nova foi uma revista publicada na Paraíba entre 1921 e 1926. O trecho da carta saiu no número 83, de 15 de julho de 1925, com o título “Alguma cousa de surréalisme”, sem indicação de autoria. O jornalista e político paraibano Antenor de França Navarro, amigo de Pedrosa, colaborava com a revista.

8. A Clarté foi uma revista de discussão política e cultural lançada em 1921 por intelectuais comunistas internacionalistas. Originalmente ligada aos surrealistas e próxima à 3ª Internacional.

9. O médico e fisiologista Charles Robert Richet, professor da Sorbonne, que integrava o movimento pacifista francês, mas foi também defensor do eugenismo e do racismo. E o militante do PC Jacques Doriot, que chefiava as Juventudes Comunistas Francesas.

10. François Marie Charles Fourier, filósofo socialista francês, propunha uma forma de cooperativismo que consistia na formação de falanstérios, comunidades autônomas e autossuficientes, organizadas de forma descentralizada, nas quais cada um trabalharia conforme seus interesses e vocações. Suas ideias inspiraram várias correntes anarquistas.

11. O escritor Graça Aranha fez o discurso inaugural da Semana de Arte Moderna, em 1922, e foi um de seus organizadores. Desde 1924, ele e Oswald de Andrade, outro ícone da Semana, mantinham uma polêmica bastante acirrada sobre o que é ou não modernismo.