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Carta 12

12. Carta de notícias enviada enviada por Mário Pedrosa a Lívio Xavier. São Paulo, 25 e 26 de agosto de 1927. Original. 5 folhas. (Contém marginália na folha 5). [Livio-1927]

[fl. 1]

Livio, como não pude resistir mais a tua saudade, e te quero bem, bandido, resolvi quebrar o silencio. Depois da tua ultima carta – foram dois mezes quasi de mallogro. Tudo fracassou – virei de pernas pro ár. Hoje pouco a pouco as cousas estão voltando a seu logar e eu mesmo, sem exotismo, como toda a gente, voltei, boneco com chumbo no fundo, a assentar-me (…).

Madame Houston, fallei com ella pelo telephone, disse que o Castro havia mandado artigo e dinheiro? para onde? será verdade?1Pedrosa se refere a Mary Houston, com quem se casou, e ao professor Edgar de Castro Rebello, que foi seu professor na Faculdade de Direito, no Rio, e uma das primeiras pessoas com quem discutiu o marxismo.

Agora – de amanhã em diante – vou voltar á actividade communista. Até agora – o mez passado todo e esse ainda (que supplicio) trabalhando, meu caro, trabalhando – a fazer estatistica, relatorio os seiscentos diabos. Obrigação dever não sei mais o que. Só a noite tinha tempo para alguma cousa. Mudei-me tambem

[fl. 2]

para uma casa – em que 5 camaradas, eu inclusive, faziamos de pensionistas, mas só durou 15 dias, e como não tinha dinheiro para ir para outro pouso – vim de novo para este porque era o unico onde tinha credito. ––

Esta é so para constar. Como é, tens recebido Clarté? Trouxe o artigo do Breton? Que achas? E Le Huma tens lido. Sabes noticias do Aragon? Domingo vou buscar em Campinas – o que o Xavier trouxe para mim de Paris: a Rev. Surrealiste, de que sou ja assignante, uma collecção completa da Clarté etc.2A revista francesa Clarté, que publicou artigos do escritor surrealista André Breton, o jornal L’Humanité, do Partido Comunista Francês, e a revista La Révolution surréaliste, a mais importante publicação do movimento surrealista. Li o Anicet – que é um livro de theoria, magnifico, imponente, resplandescente – mas mais geral mais abstracto – um systhema – do que Le Libertinage – que é mais concreto, mais particular. Anicet é um livro que a gente devia ter lido em 1922 ou 1923. Hoje ja se nota alguma cousa que o Aragon não diria mais – mas o lião ja estava todo alli – os 2 primeiros

[fl. 3]

capitulos sobre Rimbaud é uma maravilha.3Pedrosa compara dois livros do escritor surrealista francês Louis Aragon: Le Libertinage, que foi publicado em 1924 e ele já lera, e Anicet ou le panorama, o primeiro romance do autor, de 1921. O início de Anicet gira em torno do simbolista Arthur Rimbaud (1854-1891), cuja poesia transgressiva teve muita influência sobre os surrealistas. O livro é offuscante. Um bicho! ––

Li outro dia o Dedalus do Joyce.4Dedalus é o protagonista de Retrato do Artista Quando Jovem, primeira novela do escritor irlandês James Joyce, de 1916. O livro foi publicado na França com o título Dedalus: portrait de l’artiste jeune par lui-même. Gostei com restricções – paginas admiraveis, no meio de muita cousa páu. Irlandez até a raiz dos cabellos, theologo, mystico, psychologo e poeta.

Vou parar porque vou tomar banho para sahir. É hoje dia do concerto da Elsie.5A cantora lírica e compositora Elsie Houston, irmã de Mary Houston. Ella vae bem e continúa com aquella sua animação de sempre e aquelle são e robusto gosto de viver que lhe é peculiar.

O Mario de Andrade vae bem, gosto delle, mas assignou o manifesto – ridiculo e merdifero – do partido democratico – de que o Conselheiro Antonio Prado é o pagé veneravel.6O Partido Democrático (PD) foi fundado em fevereiro de 1926 por descontentes com o longo domínio do Partido Republicano Paulista nos governos do Estado de São Paulo e da República. Seu primeiro presidente foi Antônio Prado, antigo político do Império, agricultor, banqueiro e industrial. O escritor Mário de Andrade, um dos nomes mais destacados do modernismo, aderiu ao PD em 1927. Foi no jornal do partido, o Diário Nacional, que Mário de Andrade publicou a maior parte de suas críticas, contos, crônicas e poemas até 1932. Uma decepção para mim – que pensei que elle fosse catholico, theologo e reaccionario. O grupo delle todo migrou mas por, creio, que elegancias – entre elles é moda menospresar a politica – pois acima de tudo paira – sublime e pura –

[fl. 4]

amada e idolatrada (salve salve) – a Arte. São rapazes intelligentes, as vezes, de bom senso, mas em geral – por menos que queiram ser – litteratos. O Mario é o melhor delles – mas o Mario ás vezes me enternece pela sua candura, sua ingenuidade, sua crendice – na arte, na sciencia, e em Deus e na sua obra. Mario é o homem que leva tudo a serio, methodico, estudioso, compenetrado, trabalhador. É um allemão. Gráo 10 em applícação. ––

Hontem, a noite, o concerto da Elsie, com meia casa. Agradou, sobretudo na parte brazileira. Depois fomos para o bar do Esplanada – onde conversamos até meia-noite sobre musica brazileira: Ella e a Madame, o Mario, o Luciano e um outro rapaz excellente, amigo do Mario, que gosta de musica e põe, nos concertos da Magdalena, a gente para dentro do theatro, e de poltrona. Hoje Magdalena dá o 2º, o 1º foi excellente até em Bach (uma maravilha) e Beethoven (a sonata da marcha funebre) – Scherzo etc. É uma bicha – a cabelleira continua afogueada e collaboradora…

[fl. 5]

Adeus. Nada escrevi ainda e minha burrice está empedernida duma vez. Escreva- me.

(…)

Como vay de situação. Creio que este anno poderei te chamar aqui para São Paulo. Acceitas o convite? Não posso viver muito tempo longe de você que é o poço onde derramo para serem guardadas as minhas lagrimas vaidosas e amargas.

Como vae o Hahnemann?7O jurista Hahnemann Guimarães, contemporâneo de Pedrosa na Faculdade de Direito, no Rio. Um abraço nelle, famigerado humanista por quem tenho hum fraco especial. Abrace o Castro, mas a Revista sairá agora no principio de Abril. Ah gostei do teu artigo – mas acho talvez inacessivel á massa, muito ramorsé e de uma ordem de cogitações, superior as da massa. Excellente numa revista de cultura exclusivamente, como Clarté.

Adeus. Continuo a ser o mesmo sujeito digno de piedade apesar agora ja sem a vaidade necessaria para lamentar-me.

Abraça teu velho Mario.

Na margem esquerda: dia 26, 6ª feira!

Notas

1. Pedrosa se refere a Mary Houston, com quem se casou, e ao professor Edgar de Castro Rebello, que foi seu professor na Faculdade de Direito, no Rio, e uma das primeiras pessoas com quem discutiu o marxismo.

2. A revista francesa Clarté, que publicou artigos do escritor surrealista André Breton, o jornal L’Humanité, do Partido Comunista Francês, e a revista La Révolution surréaliste, a mais importante publicação do movimento surrealista.

3. Pedrosa compara dois livros do escritor surrealista francês Louis Aragon: Le Libertinage, que foi publicado em 1924 e ele já lera, e Anicet ou le panorama, o primeiro romance do autor, de 1921. O início de Anicet gira em torno do simbolista Arthur Rimbaud (1854-1891), cuja poesia transgressiva teve muita influência sobre os surrealistas.

4. Dedalus é o protagonista de Retrato do Artista Quando Jovem, primeira novela do escritor irlandês James Joyce, de 1916. O livro foi publicado na França com o título Dedalus: portrait de l’artiste jeune par lui-même.

5. A cantora lírica e compositora Elsie Houston, irmã de Mary Houston.

6. O Partido Democrático (PD) foi fundado em fevereiro de 1926 por descontentes com o longo domínio do Partido Republicano Paulista nos governos do Estado de São Paulo e da República. Seu primeiro presidente foi Antônio Prado, antigo político do Império, agricultor, banqueiro e industrial. O escritor Mário de Andrade, um dos nomes mais destacados do modernismo, aderiu ao PD em 1927. Foi no jornal do partido, o Diário Nacional, que Mário de Andrade publicou a maior parte de suas críticas, contos, crônicas e poemas até 1932.

7. O jurista Hahnemann Guimarães, contemporâneo de Pedrosa na Faculdade de Direito, no Rio.